O Silêncio que a agulha rompe: Vestígios Bordados / Homenagem à Zuzu Angel - Odijas Carvalho de Souza presente!
Bordado participante do projeto O Silêncio que a agulha rompe: Vestígios Bordados / Homenagem à Zuzu Angel
Bordado livre sobre algodão
20x20cm
2026
Este bordado é uma homenagem a Odijas Carvalho de Souza, jovem de 26 anos vítima da ditadura militar em 1971. Faz parte do projeto O Silêncio que a agulha rompe: Vestígios Bordados / Homenagem à Zuzu Angel, organizado pelo Projeto Fio às Cinco em Pontos e o Coletivo Linhas da Gamboa, em parceria com o Instituto Zuzu Angel.
Foi pensando no movimento estudantil, na universidade onde trabalho e na minha profissão, que resolvi homenagear um jovem estudante negro de Agronomia, da Universidade Federal Rural de Pernambuco - Odijas Carvalho de Souza, assassinado pelo regime militar em Recife/PE em 1971.
Quem foi esse rapaz? Fui buscar informações que revelassem a potência de sua vida, para além das violências que sofreu... Odijas nasceu em Atalaia, Alagoas, em 1945. Muito jovem começou a participar de lutas estudantis e tinha o sonho de mudar o país com uma perspectiva nacionalista e democrática. Em 1964 ele se muda para Recife onde termina o colegial e é selecionado pelo programa de bolsas de estudo e cursos pré-vestibular da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste para entrar na universidade. Tudo indica que foi neste mesmo ano em que Odijas se tornou estudante de Agronomia na UFRPE. Em Recife, morava em pensões ao redor da universidade e, para se manter, trabalhava como vendedor de livros e era professor particular. Continua sua militância e participa do movimento estudantil na Universidade, onde teve um papel importante na organização dos estudantes. Também foi representante de turma desde o primeiro ano, participou da Associação Atlética Acadêmica do curso, foi presidente do Diretório Acadêmico, da União Estadual dos Estudantes e do Comitê Universitário do Partido Comunista. Além do movimento estudantil, participou do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário.
Os anos entre 1964 e 68 foram de muitas lutas e de movimentação estudantil no Brasil e em Pernambuco, pois no contexto da ditadura militar, havia um clima acentuado de insatisfação estudantil. Com isso, houveram grandes manifestações por melhoria de condições dos restaurantes universitários e moradias estudantis, contra o pagamento de anuidades, por mais vagas nas universidades, pela reforma universitária à brasileira e não alinhada a política educacional do governo e do programa MEC USAID, que visavam reestruturar o ensino no Brasil a partir dos moldes e diretrizes norte-americanos. Como o Brasil vivia uma ditadura e havia muita interferência dos Estados Unidos, os estudantes também lutavam contra o imperialismo americano e contra a Guerra do Vietnã. Em Recife, faziam comícios relâmpagos em feiras, panfletagens e denúncias. Neste período, Odijas estava na linha de frente das manifestações estudantis e propunha a formação política de revolucionários.
Havia uma intensa ofensiva policial contra os estudantes e o próprio reitor da UFRPE denunciou os estudantes ao regime militar. Odijas, junto com outros estudantes, foi indiciado e obrigado a entrar na clandestinidade em 1967.
Em 1968 Odijas muda-se para Fortaleza/CE, e continua sua militância como dirigente do partido. Em 1971 Odijas retornou para Pernambuco ainda clandestino, mas logo após foi capturado por agentes da ditadura militar, em Paulista (Região Metropolitana de Recife) no dia 30 de janeiro. Levado para o DOPS com seus companheiros, foi brutalmente torturado, não resistiu e faleceu oito dias depois.
De acordo com a esposa e amigos, Odijas era um jovem cativante, alegre, cantante, fraterno, disponível para a festa e para o trabalho. Tinha grande sensibilidade, gostava de arte e, quando era estudante, batucava sambas em uma caixa de fósforo em festas de quintal nos arredores da UFRPE, brincava carnaval e cantava os sucessos do momento, como a música de Paulinho da Viola "Foi um rio que passou em minha vida". Mas Odijas gostava de discutir política, era inquieto e ativo. Focado na luta, era extremamente responsável e um revolucionário aguerrido. Além disso, era um grande articulador, muito estudioso, inteligente e um quadro político. Sempre dizia: Vivo pela Vida, Luto pela Vida! Ele foi extremamente corajoso pois, apesar da grande violência que sofreu, não vacilou em não entregar ninguém, nem o partido e nem seus companheiros de militância.
Assim, procurei celebrar a memória de Odijas Carvalho de Souza, resgatando também a importância do movimento estudantil de Agronomia, "lembrando para não esquecer" e bordando para que a nossa Democracia não seja aviltada, ainda mais neste momento importante de eleições onde estão em jogo projetos contraditórios para o nosso país.
Para construir o bordado li documentos da Comissão da Verdade, notícias de jornal da época, processo da prisão, o livro 100 anos de participação estudantil na UFRPE de Paulo Afonso Barbosa de Brito e Maria Grazia Cribari Cardoso (org.) e a monografia de graduação em Licenciatura Plena em História de Ricardo do A. Bastos da Silva, Odijas Carvalho de Souza e o Movimento Estudantil durante a ditadura militar em Pernambuco: 1967 – 1971, 1998.